Meu TCC nota Dez sobre o Modernismo
UERJ
DEPARTAMENTO DE LETRAS – ILE
Professor: Flávio Carneiro
Aluna: Claudia Castro de Andrade
Sobre o movimento modernista, Antonio Candido e José Aderaldo Castello afirmam:
“Na poesia, nota-se desde logo um abandono das formas poéticas consagradas, que haviam sido cristalizadas pelo Parnasianismo. Há uma espécie de extravasamento geral de lirismo, em formas livres, sob as quais não reconhecemos mais as estruturas tradicionais." (In: Presença da Literatura Brasileira - Modernismo. 9a. ed. São Paulo: Difel, 1983, p. 18)
O presente, e por mim intitulado, ensaio é oriundo de um trabalho de conclusão de curso, o qual não poderia ser narrado e descrito de forma diferente, considerando-se que o tema seja justamente o modernismo com seus aspectos inovadores e criativos. Desse modo, faço uso da liberdade criativa e da licença poética para não me limitar a uma descrição acadêmica, mas antes nietszcheneamente intuitiva (e quem sabe psicográfica) da Gestalt modernista. Uso de formas livres e lirismos extravasados.
O movimento modernista representou o esforço de atualização de nosso ambiente cultural atrelado a um momento de conscientização nacional. O abandono de formas poéticas consagradas descrito por António Cândido e José Aderaldo Castello pode ser identificado, por exemplo, na obra “Manifesto da poesia pau-brasil”, de Oswald de Andrade.
A poesia de estética pragmática destaca as coisas simples do cotidiano em favor da criação, da potência criadora contra a morbidez do gabinetismo e seu insistente conservadorismo purista. Como bradou Bandeira: “abaixo os puristas!”.
A originalidade, a invenção, a surpresa e até o espanto filosófico do poeta moderno, aquele que quer antes o lirismo dos loucos, estão na contramão do “aguado poeta parnasiano” e sua máquina de fazer versos matematizados na expectativa metrificada pela lógica.
Assim, o modernismo deflagra a ruptura com a inércia e com a acomodação do poeta. A antropofagia dos modernistas caracterizou não só a degustação, mas o devoramento faminto de anglicismos e cuspiu algo criador, na medida em que ressignifica a cultura estrangeira. Com isso, não se rende ao que as tradições mantinham como valorativo ao mesmo tempo em que não se transforma radicalmente num fascismo desmedido, como proposto pela “Escola da Anta", de inspiração fascista, liderada por Plínio Salgado. A ruptura com as tradicionais estruturas não descaracteriza o movimento modernista, dada, desse modo, sua legitimidade paradoxalmente de excessos e radicalismos, sem, no entanto, ser excessivamente radical.
Como atesta Haroldo de Campos, em sua “Poética da Radicalidade", a poesia olswaldiana, por exemplo, se refere à consciência prática inscrita na linguagem, enquanto um produto social e artificialmente construído sem mitos patriotas ou deuses parnasianos do Olimpo com verbetes ilustres e métricas que demarcavam a hierarquia linguística com seu juízo de valor sobre o que é ilustre ou não é (o que caracteriza a eloquência “balofa”, como diria Campos).
Haroldo de Campos explica o contexto histórico da poesia oswaldiana e o porquê de sua ruptura com os padrões determinados. Resta saber, no entanto, (e tomo aqui a liberdade deste questionamento) se a ruptura com aqueles altos padrões tão distantes da realidade brasileira não deflagrariam, com sua influência industrial, o extremo de seu avesso, a radicalidade, não de linguagem somente, mas de um comportamento típico do radical que destrói , aniquila o outro lado que não tolera.
O discurso legítimo, vale lembrar, contra uma intelectualidade fútil de gabinete, um gabinetismo como “prática culta da vida”, não teria resvalado numa poesia excessivamente acimentada pela verticalização industrial de uma grande São Paulo? É preciso romper excluindo ou é justamente de sua antítese que necessita a poesia modernista? São elementos que mais do que esperar uma resposta pronta e absoluta nos enriquece com suas indagações que nos trazem elementos a se pensar sem necessariamente qualquer resposta pretensiosamente ideológica. Sem dúvida é preciso uma originalidade nativa que torne inútil uma adesão superficialmente acadêmica e de gabinete, cujas implicações desta adesão significariam nada menos que um retrocesso ao conservadorismo purista que ultrapassa as barreiras do pensamento e da linguagem e se fazem presentes nas ações e no comportamento.
No dilema entre tradição e ruptura encontramos entre os seus aspectos a tentativa de uma compreensão de uma identidade nacional por meio de uma literatura de vanguarda que valoriza o progresso e a modernização. A tentativa de uma superação, não só da escrita, mas da linguagem e do comportamento humano e seus modos de interpretação e compreensão do mundo, revelam a necessidade de auto-afirmação nacional desse momento. O escárnio se faz presente como mola propulsora. Escárnio do “lirismo comedido”, na poética de Bandeira. Uma “língua sem arcaísmos, sem erudição”, naturalmente neológica, como descrito no Manifesto de Oswald de Andrade, e que seja capaz de romper a barreira que separa o falar do ser; a linguagem da própria existência, pois somos como falamos. Nossos falares, portanto, rompem o abismo entre a linguagem e aquilo que nos caracteriza ontologicamente, existencialmente. A literatura se torna então a própria expressão da existência em seu viés cotidiano, pragmático e nativo.
Não há transitividade no verbo Amar como descrito em prosa, em 1927, por Mário de Andrade, como também não há transitividade no verbo Ser, pois sendo ser o mesmo que existir, a existência, conclui-se, é uma prosa literária que se encerra nela mesma sem qualquer regalo de erudição e expectativas “políticas, raquíticas e sifiliticas”. Não precisa complementos vazios nem “capitular ao que quer que seja fora de si mesmo".[1]
O coloquialismo aliado à ironia modificam, dessa forma, não só uma estética literária, mas a estética do próprio ato de pensar e compreender aquilo que etimologicamente a palavra estética suscita, ou seja, compreender “aquilo que pode ser sentido", o oposto da anestesia que o radical grego delimita. Como descrito no “Manifesto”, de Oswald de Andrade, é uma estética pragmática que parte do princípio de que “a poesia existe nos fatos”.
Excelente
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