FILOSOFIA E HISTÓRIA DA ARTE: O SURREALISMO E O MANIFESTO ANTROPOFÁGICO
O
SURREALISMO[1]
Claudia Castro de Andrade
claudiacastro@ufrj.br
O sonho não pode ser ele
também aplicado à
solução das questões
fundamentais da vida? (Breton,
1976:175)
CARACTERÍSTICAS:
- Valorização
do passado;
- Método
da livre associação e do automatismo, através do qual o ser humano se
expressa sem nenhum tipo de controle da mente;
- Influências
de Freud e Marx;
- Emancipação
total do homem. O homem livre de suas relações psicológicas e culturais;
- Restauração
dos sentimentos humanos e dos instintos;
- Fantasia,
estado de tristeza e melancolia;
- Recorrência
à magia, ao ocultismo;
- Busca
do homem primitivo, ainda não maculado pela sociedade;
- Experiências
com o sonho e com o sono hipnótico;
- Exploração
do inconsciente.
Como descrito no livro Vanguarda européia e modernismo
brasileiro, a escola surrealista possui duas fases. Ambas são
marcadas por dois manifestos feitos por André Breton que lançou o surrealismo
ao mesmo tempo em que se dedicava às investigações oníricas. Assim sendo, temos
as seguintes fases:
- Manifesto
de 1924: Primeiro manifesto – enfoque claramente subjetivista, devido á
influência de Freud e marcado por suas investigações sobre o sonho.
- Manifesto
de 1930: Influência do materialismo marxista. Pragmático, e, em certa
medida, poder-se-ia dizer, mais objetivo, apesar ainda do apelo
subjetivista.
O surrealismo foi
intensamente influenciado pelas descobertas de Freud, a quem André Breton dá
graças pelas descobertas. Em tom esperançoso, Breton afirma em seu manifesto
que “a imaginação está talvez a ponto de
retomar seus direitos”. Enquanto exalta Freud, Bretom expõe que é
inadmissível que a atividade psíquica do sonho tenha chamado tão pouca atenção,
pois sonho e vigília compõem uma realidade absoluta que podemos nomear de
super-realidade.
Ao mesmo tempo em que o
surrealismo foi influenciado pelas descobertas freudianas no campo do
inconsciente também teve influência, em seu segundo momento, da ideologia
comunista. Entretanto, seu paulatino desaparecimento ocorreu devido ao
ceticismo existencialista da filosofia francesa.
Enquanto afirmava suas
necessidades e atividades políticas, o surrealismo também afirmava sua
exaltação ao subjetivismo. Dessa forma, o surrealismo era, por natureza,
ambíguo. Isso porque, o marxismo, por sua natureza materialista, distancia-se
do clamor subjetivista, muito em conseqüência de sua recusa ao idealismo
alemão, sobretudo em relação à influência de Hegel, justamente por verem na
corrente idealista uma aproximação demasiado profunda com a contemplação que
ocorria na contramão de seus interesses práticos e de ação.
A filosofia francesa não
tolerou o surrealismo. Influenciada pela releitura de Nietzsche através de Heidegger
e pela virada lingüística, esta
corrente fundamentou-se na práxis, na ação, nos atos de fala e, com isso,
afastava-se sobremaneira do surrealismo.
É claro que ao lançar seu
segundo manifesto, Breton não desejar ficar apenas na contemplação, pois “O sonho não pode ser ele também aplicado à
solução das questões fundamentais da vida?”, mas, embora usasse esse
argumento, o surrealismo continha características que as novas tendências
filosóficas se opuseram. E, sobre isso, Breton não escondia a essência surrealista
e afirmava que “a atitude surrealista não
é incompatível com uma certa elevação do pensamento” e que “a intratável mania que consiste em ligar o
desconhecido ao conhecido, ao classificável, embala os cérebros. O desejo de análise tem supremacia sobre os
sentimentos”.
Em outras palavras, o que
Breton diz é que somos racionais demais. Em nossas representações não há lugar
para o lúdico, para a quimera. Tudo parece precisar estar na coerência das
classificações. Talvez o que traduza isso seja uma recente frase de Oscar
Niemeyer em uma entrevista para uma emissora de TV: “Os medíocres precisam de explicação pra tudo”. É nesse sentido
que, segundo Breton, a razão se sobrepõe aos sentimentos, pois “vivemos ainda no reinado da lógica”.
Sobre a linguagem surrealista
exposta na página 191, Breton comenta que o surrealismo poético procura
reestabelecer o diálogo sem obrigações de cortesia e sem imposições. Palavras e
imagens são trampolins para o espírito de quem ouve e não uma escada reta. A
interpretação, a comunicação, a dialogia, portanto, é uma aventura e não uma
mera formalização de idéias. Para enfatizar o que acabara de expor, Breton
compara a imagem surrealista com o ópio, o que significa que as imagens (e as
linguagens, podemos também dizer) independem da vontade humana.
Para finalizar, vale
lembrar que Breton exalta a infância como algo que mais se aproxima da vida e
define o surrealismo como aquilo que pode trazer de volta essa infância:
“Talvez
seja a infância o que mais se aproxima da verdadeira vida”. (Breton, 1976:197)
O ESPÍRITO MODERNO
Graça Aranha inicia seu
texto comentando que é uma efemeridade persistirmos na mobilidade e na
eternidade e ressalta a intensa ênfase dada aos discursos extremistas em favor
do individualismo que, por suas próprias palavras, subordinou o Todo universal ao nosso eu. (ibid., p. 188).
Para exemplificar ele diz
que a individualidade foi influenciada pela Idade Média e depois pelo
Renascimento, em uma alusão, talvez, aos humanistas, Locke, Bacon e Hume, por
exemplo, que se preocupavam basicamente com o sujeito observador. Ele destaca
também que Rosseau exaltou o indivíduo a ponto de germinar um subjetivismo
delirante, como referência a Descartes que encerrou tudo no subjetivismo
transcendental do cogito cartesiano.
Graça Aranha também
comenta que não há movimento artístico que não seja influenciado por um
movimento filosófico e, sobre o Impressionismo, lembra que este estava
subordinado à tirania dos sentidos, sendo, pois, libertado pelo cubismo que
resgatou as formas da obra de arte através das linhas geométricas. Contudo, ele
entende que o erro do cubismo foi desprezar completamente os sentidos e fazer
uma arte puramente espiritual que o leva a um idealismo transcendente e a um
excessivo subjetivismo. O cubismo, portanto, como verdadeira afirmação do
subjetivismo, se opõe, por assim dizer, ao objetivismo dinâmico proposto pelo
fecundo espírito moderno. Esse subjetivismo é fatal para o individualismo, na
medida em que parte de um pressuposto homogêneo e universal que descaracteriza
o sujeito e suas especificidades, e não só o sujeito, pois cairíamos no
individualismo extremo e subjetivista, mas também o social, o coletivo, as
ações humanas e toda a sua complexidade.
O objetivismo dinâmico
característico do espírito moderno pressupõe que eternas são as forças, as
potências criadoras e libertadoras do pensamento, da emoção e da vida como um
todo.
A unidade universal,
segundo o autor, reconhece a constante transformação do ser humano, haja visto
que tudo está em movimento, ao mesmo tempo em que seu espírito tende para um
universalismo. O universo não é um
espetáculo, é uma integração (ibid.,
p. 193). É nesse sentido que a arte se liberta da natureza. A natureza é algo,
agora, de fato, imanente, nem tampouco aquilo que podemos apenas contemplar
passiva e subordinadamente. A natureza na perspectiva moderna é algo tal como o
conceito de physis que os gregos
conceberam, é algo imanente, integrado, no qual nada se produz fora dele e o
ser humano é livre e independente, dinâmico e construtor.
Além de propor um
afastamento da imitação em relação à natureza, Graça Aranha também propõe que
não imitemos a arte estrangeira e que façamos nós a nossa própria arte, a
partir de nossa cultura e nosso folclore, deixando aflorar seu sentimento político
e nacionalista como defensor de um modernismo antropofágico.
O espírito moderno é
dinâmico e construtor. Por ele temos de criar a nossa expressão própria. Em vez
de imitação, criação. Nem a imitação européia, nem a imitação americana – a
criação brasileira. Todos os povos criaram. O próprio americano do norte, ainda
inculto, criou. Só o brasileiro se julga incapaz de criar e resignado se
humilha na imitação. (ibid., p: 195)
Contra a Academia
Brasileira de Letras declara corajosamente que sua criação foi um erro e um
equívoco, na medida em que foram destinadas a zela pela tradição, o que supõe
um povo culto, ao passo que somos um povo inculto e com raros escritores de
primeira ordem. Além de exaltar a necessidade do passado, ela também errou ao
querer tornar-se cópia fiel da Academia Francesa.
O autor finaliza seu texto
com um brado retumbante de exaltação
ao Brasil, às potencialidades da cultura e da arte brasileira e ao dinamismo
fértil e libertador da modernidade.
MANIFESTO ANTROPÓFAGO
Tupi or not tupi,
that is the question.
O manifesto antropófago, expressão máxima do movimento modernista, é uma demonstração do caráter nacionalista da proposta arte moderna como se pode perceber na frase Contra todos os importadores de consciência enlatada (ibid., p. 27). O modernismo buscou a afirmação identitária, o resgate às raízes. Queremos a revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. (ibid., p.227).
O modernismo lembra que
devemos acreditar em nossas criações, ou melhor, nos faz acreditar que somos
capazes de criar. E não apenas imitar. Precisamos nos despir de nós mesmos,
enquanto povo colonizado. Resgatar a coragem artística livre e emancipada do
academicismo colonizador.
O modernismo não quer o
reversível, nem o retrocesso, não quer o novamente. Por isso ele vai contra o
mundo reversível, pois a vontade de mudança é seu constante devir. O modernismo
quer a esperança do novo, do moderno.
Eu, tomando a liberdade,
típica dos modernistas, traduziria o manifesto antropófago como uma celebração
(que não apenas celebra, não apenas contempla passivamente, mas que determina e
significa) a um modernismo que situa-se numa posição contrária à determinadas
regras. Traduzo então, assim o modernismo, inspirada por sua liberdade criadora
e criatividade poética:
Não à subserviência eurocêntrica, religiosa, moralista,
subjetivista, colonialista e saudosista. Não à fixação historicista dos fatos e
à telescopagem filosófica, é pra frente que queremos caminhar; o tempo, o
momento e os fatos estão além da superficialidade histórica e da psicologia
coletiva; Não ao eterno e imutável, ao homogêneo e universal; Não à mesmidade
não-criativa; à igualdade sem identidade; Não ao êxtase subordinado e ao
pretensioso purismo racial - e literário - e Não, sobretudo, à seriedade
engravatada, escarro contido de todos aqueles que não sabem debochar.
Referência bibliográfica:
TELES, G. M. Vanguarda européia e
modernismo brasileiro. Petrópolis, RJ : Vozes, 1976.
[1] Nome criado por André Breton e Philippe Soupault em
homenagem a Guillaume Apollinaire, que havia acabado de morrer e que, segundo
Breton, seguia os impulsos da corrente surrealista.
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